Depoimentos indiretos e decisão de pronúncia

uma análise do standard probatório necessário para a submissão do acusado ao tribunal do júri

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17655/rdct.2025.e0004

Palavras-chave:

Tribunal do Júri, Pronúncia, Depoimentos indiretos, Standard probatório, Testemunhos por ouvir dizer.

Resumo

O presente artigo científico analisa a insuficiência probatória do testemunho indireto para fundamentar a decisão de pronúncia no rito do Tribunal do Júri. Tenciona-se demonstrar o reduzido potencial epistêmico dos depoimentos indiretos a partir da impossibilidade do exercício efetivo do contraditório, da ampla defesa e do direito ao confronto (cross-examination). O artigo também se debruçará sobre a imprescindibilidade de oitivas das testemunhas referidas e sobre o conceito de injustiça epistêmica agencial. Em contraposição ao aforismo não positivado do in dubio pro societate, o ensaio defende que o standard probatório para a pronúncia requer uma elevada probabilidade da tese acusatória, equivalente ao critério da "prova clara e convincente" (clear and convincing evidence). Nessa linha, a jurisprudência recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) rechaça a idoneidade do testemunho indireto como prova única para a pronúncia. Em seguida, será analisada a regulação do tema em outros países e apresentadas propostas para o tratamento dos depoimentos indiretos no processo penal brasileiro. Conclui-se que, embora o hearsay possa ser admissível como mero elemento informativo, já que não se trata de prova ilícita ou ilegítima, é epistemicamente imprestável para atingir o standard probatório exigido para a submissão do acusado ao Tribunal Popular.

 

Biografia do Autor

Helena Morgado, Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro

Assessora de Ministro do Superior Tribunal de Justiça. Defensora Pública do Estado do Rio de
Janeiro. Mestre em Direito Penal pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro | Email:
helena.morgado@defensoria.rj.def.br

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Publicado

2025-12-16

Como Citar

Morgado, H. (2025). Depoimentos indiretos e decisão de pronúncia: uma análise do standard probatório necessário para a submissão do acusado ao tribunal do júri. Revista Direito E Contexto, 1(1), 1–27. https://doi.org/10.17655/rdct.2025.e0004

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